Cenografia Holográfica

Cenografia Holográfica

        Desde o advento cinematográfico, o teatro lida com sua crise de identidade assim como a pintura em relação a fotografia. A definição versus a aura é um embate platônico sobre a autenticidade da manifestação de fenômenos e a realidade Idealizada. Essa filosofia aproxima as imagens simbólico religiosas à comprobabilidade científica. A arte contemporânea com suas instalações tentou desvendar o constructo dos próprios objetos de uso social, como a obra em um museu é tão útil à Beleza quanto um mictório público estragado. Talvez seja por isso que a classe da atuação cênica tenha demorado tanto a se render a fixidez das câmeras?
        As técnicas de iluminação chamam atenção de pesquisas em antropologia, pois exemplifica diretamente a reação da racionalidade ao contemplar a mecânica da Mimese. Ao contemplar a relação entre luz, sombra, objeto e a própria dimensão de ordem matemática que existe entre os corpos, o momento da difusão do prisma cromático, a própria óptica, essa conexão entre pontos, o ponto de vista. Sofismos descartianos do Homem como medida de todas as coisas refletem diretamente essa necessidade da óptica na construção dos princípios de realidade sendo assim uma linguagem em si. Nossa dependência visual nos faz reconhecer a imagem como estatuto, e a mistura do ser com uma imagem do ser nunca foi tão exposta em seu paradoxo, como nessa era de pornografias (Byung Chul-Han A Agonia do Eros). 
        A propagandização de si (como marca, superego e potência exemplar de si mesmo) tem suas vantagens no sentido de buscar um modo de ser que possa se fazer entender em qualquer parte onde haja racionalidade. A globalização com as redes sociais deu um passo adentro da grande Cultura, apesar de pender  o indivíduo ao corpo social através de uma prótese comunicativa e com mais armazenamento de memória que jamais imaginamos, tornando o inconsciente coletivo um mero banco de dados, com sua deep web como memórias reprimidas. A internet é uma psique virtual da produção imagética humana. Quem domina a arte de manipulação de imagens, acessa diretamente camadas simbólicas e pode expressar o que quiser sem muito limite para reprodutibilidade (os direitos autorais vão até onde uma captura alcança), “o melhor artista rouba” (Banksi). Nesse sentido a forma já denuncia a técnica, e o espetáculo de nossas próprias produções vão se reconhecendo. 
        A “desartificação” da Obra, a iconoclastia do celebritismo, baixa qualidade da espontaneidade misturada ao HD (Contracultura), a perda do valor de culto (Benjamin*). Finalmente podemos ver. O artista sempre foi um médium, desde a entrevista com o Ator rapsodo ION, Platão já questiona a inspiração divina no trabalho de representação cênica, por questões como intenção, adulação, e onde está a consciência daquele que se coloca no centro de do lugar iluminado. A fogueira (cena Frequência 2020*) como simbologia do médium também aparece na República com a metáfora da Caverna, a Iluminação como criadora de Ilusão para que as cópias permaneçam cópias. O elemento cênico-ritualístico da iluminação une-se a harmonização sonora e cria filtros ambientes, filtros que a inteligência artificial conhece até o último bit. Esse olhar bidimensional que esse aprisionamento (no melhor sentido) a tecnologia propõe, pode ser encarada como um exercício da empatia, o olhar frio da câmera como ensaio de público, a efemeridade do teatro no podcast assim como conteúdo frequente produzido artesanalmente e lançado com roteiros tão executáveis quanto os da performance de rua. Sem o contato físico, o teatro obrigou-se a aceitar sua abrangência a todas as outras artes.

        “Se o teatro existe para permitir que o recalcado viva, uma espécie de atroz poesia expressa-se através de atos estra nhos em que as alterações do fato de viver mostram que a intensidade da vida está intacta e que bastaria dirigi-la melhor” – A. Artaud

        Um celular, foi o que bastou para nos assumirmos midiáticos, e insisto em dizer que a proposição de sublimação através da estética, enquanto produtora de substâncias químicas cerebrais legalizadas, unida a práticas saudáveis de autocrítica pode tornar nosso caminho de pontífices uns dos outros um pouco mais transparentes*(sociedade transparência Byung Chul), como serotonina aos neurônios culturais que nos cabem transportar. Pois a justiça está totalmente ligada a ideia que não é mostrada, o invisível pode instigar a injustiça * Nesse sentido nossa sociedade prioriza a positividade, e o mistério fica completamente planificado. 
        As Igrejas e a Ciência tem seu amálgama na Arte (através da Beleza), esta que está presente no momento da contemplação e envolvimento sensorial. A acessibilidade de uma arte inclusiva estendida a pessoas com deficiência exemplifica bem todos os níveis sensoriais ideais ao desenvolvimento completo da arte espetacular, as fronteiras entre as artes e vida mais uma vez nós empurram ao questionamento de nós mesmos, nosso espelho mágico mais sincero. Teatro está mais para o presente permeado de ondas que se sentem (Frequência 2020) que para “lugar de onde se vê”. 
        No teatro, a instalação, as cartografias Deleuzianas aparecem na obra BR-3, do teatro Vertigem. Com um passeio pelos escombros da civilização (a podridão do rio metropolitano), completamente oposta em métodos (e possibilidades) à peça Frequência 2020, com a iluminação de quarto e a representação do passeio através da trilha sonora, na BR3 a iluminação é a Natural: postes de luz; nesse sentido ambas trazem o mesmo recurso elétrico de iluminação, mostrando a relação espacial como protagonista mais uma vez. Craig, Appia, os próprios renascentistas com suas inovações foram citados no à luz da linguagem- um olhar, de Cibele Forjaz como valorizadores da camada Simbólica da Iluminação, Bob Wilson trás o extremo da luz de Mídia para a cena. A forma cristaliza o conteúdo, e muito do minimalismo contemporâneo se manifestou após a recente pandemia e revisão (sempre) necessária dos paradigmas da Indústria.
        A arte integrada e imediata tem mostrado com seus rastros em cache que a efemeridade da cena teatral chegou aos meios que antes fixavam a Obra em uma espécie de constelação de super produções eternas que se tornam invariavelmente clássicas (vintage, underground, retrô), a arte hoje se confunde com a vida até nos meios de comunicação. A urgência de uma rede de significados trouxe as discussões para dentro de nossos tabletes (Shakespeare na época de Elisabete tinha um bloco de barro que usava para anotações rápidas, as tecnologias também avançam rápido no lado de lá do Rio Tamsa, na Londres de 1600. O texto Iluminação fala das aparições de fantasmas Shakespeare anos como uma nova construção do local de mistério, a poesia reacendendo a fogueira mítica e não coincidentemente, nossa época toma consciência do próprio fantasma, sendo tema recorrente na psicanálise, na sociologia, o que Artaud já falava em O teatro e Seu Duplo. A sombra, o outro, os necessários banimentos do conteúdo poético como limpeza da poluição da cidade ideal. O paradoxo da tolerância puxa o artista para a linha de frente (Avant gard), como guardião e guardiã platonicxs, pois esse denunciará as próprias sombras projetadas pelos meios (mídias). 
        Em confinamento o meio Midiático propagou a expressão de milhares de pessoas em nível terapêutico. Uma nova forma de se comunicar tem tornado a expressividade idiossincrática cotidiano mais próxima das formalidades dos canais oficiais de informação, e pode incentivar o autodidatismo nas produções e direções artísticas, agora assumidamente multidisciplinares, como o Ideal das bases de uma civilização harmônica. A consciência ao artesão das imagens que seu processo nunca paralisa definitivamente, a própria óptica vai continuar devorando e plasmando a imagética coletiva, mostrando que o work in process se adapta à vida assim como o marketing se acopla a qualquer negociante. O sentido do PLAY está explicado, estamos tocando e trocando arte a frente, jogando-a. É como a eterna brincadeira do Sol e da Terra, matéria e a temperatura, o movimento e o objeto. Finalmente devemos aprender a olhar através desses olhos que criamos nosso melhor ângulo, enxergar realmente o que há por trás do espelho de Narciso, o rio incontrolável da Alteridade. 


A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica, BENJAMIN, W.  L± Edição de bolso (2018)

A República, Platão; Perspectiva; 1ª Edição (1 janeiro 2010)

Byung Chul Han, A Agonia do Eros; Editora Vozes Limitada, 2017

Cena Frequência 2020, Grace Passô, SescemCasa

BR3 – Teatro da Vertigem, 2006

Anel de Giges – Platão; A República, décimo livro (A República 612b), Sócrates refere-se ao anel como "o anel de Giges"

Artaud O teatro e o seu Duplo; 1987, Martins Fontes, 2016

À luz da linguagem - um olhar, Simões, Cibele Forjaz. São Paulo, 2013, catálogo USP

Powers, William. 2012. O BlackBerry de Hamlet: filosofia prática para viver bem na era digital. São Paulo: Alaúde.

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